Rabindranath Tagore e o grupo e revista “Nós”.

Em outubro de 1963 vim viver à cidade de Ourense desde a minha aldeia de Corna para estudar Magistério. Vicente Risco falecera alguns meses antes. Por isto, infelizmente, não pude conhecê-lo de maneira pessoal. E quanto gostaria de o ter conhecido! O pintor Pepe Conde Corbal, quando os do grupo “Adepende” organizamos a exposição para salvar o Teatro Principal, foi quem mais nos ilustrou sobre a vida e obra risquiana. Depois também a estupenda biografia escrita por Carlos Casares. Com motivo de que no ano 2020 imos comemorar o centenário da revista Nós, e do seu grupo dinamizador, no que destacaram Risco, Otero, Cuevilhas e Castelão, quero dar a conhecer aos meus leitores a visão que tinham sobre o grande educador, literato, músico, pintor, filósofo e pensador bengalí-indiano Rabindranath Tagore.

1. Vicente Risco, descobridor de Tagore
No dia sete de maio de 1861 nascia na cidade de Calcutá, no paço Thakurbari familiar, o meu admirado Rabindranath, de quem imos comemorar os 159 anos do seu nascimento, e eu quero falar da importante relação entre Vicente Risco e Tagore. Possivelmente Risco (vulto fundamental do grupo “Nós”) foi o único galego, juntamente com Carme Brei Moure, cuidadora galega da casa de Victoria Ocampo em S. Isidro-Buenos Aires, em que morou Tagore por mais de dous meses em 1924, que pôde ver o bengali ao vivo, quando escutou em 1930 uma sua conferência na universidade de Berlim. Como sabia inglês, e parece que também sânscrito, leu por acaso, em 1912, o livro de Evelyn Underhill O Caminho Místico, onde se fala muito e bem de Tagore. Comentando este livro, Risco chegou a dizer: “Pois um desses seres extraordinários é Rabindranath Tagore. Num livro inglês publicado no ano passado, e que teve um grande sucesso, The Mystic Way de Miss Underhill, assinala-se Tagore como um grande poeta cuja arte esquisita e serena visão do eterno, através do temporal, fá-lo aparecer como um génio extraordinário, uma estrela de primeira ordem no céu da arte”. Logo, Risco lê a primeira edição da Oferenda lírica, A lua nova, O jardineiro e Sadhona.

Estes quatro livros tagoreanos entusiasmaram Risco. Tanto, que falava com os seus amigos de forma continuada e entusiasta sobre Tagore, da sua maravilhosa obra e do seu excelente pensamento. Alguma amigos chegaram a dar a Risco o alcume de “Tagore”. E não foram poucos os que pensaram, ao escutá-lo, que ele era o mesmo Tagore. Em posteriores artigos, Risco comenta este feito. No 1913 Rabindranath recebe o prémio Nobel de literatura e o Ateneu de Madrid convida Risco para que pronuncie sobre o escritor de Bengala uma conferência. Com grande sucesso, no sábado dia 7 de março de 1914, às 6 da tarde, sob o título de “Rabindranath Tagore, Premio Nobel de Literatura”, diante de numeroso público interessado, fala do grande vate bengali com grande entusiasmo. Tenho cópia da mesma na minha biblioteca dedicada a quem os tagoreanos do mundo consideramos como o “Leonardo da Vinci do século XX”. Foi publicada nos números 17 e 18 da revista La Palabra, figurando a data do ano 1913, mas editada posteriormente. Muito interessante e completa, com quase nenhum erro, é o primeiro estudo sério realizado no nosso país sobre Tagore. Não tenho nenhuma dúvida de que Risco foi o verdadeiro descobridor de Tagore em Espanha, o primeiro tagoreano e o primeiro que aqui falou sobre ele.

Risco que, como todos sabem, passou por muitas e variadas etapas na sua frutífera vida, escreveu continuadamente sobre Tagore, a quem muito admirava. Inclusive quando a partir de 1930, ao conhecê-lo em pessoa, se esvaiu bastante aquela admiração que por ele sempre teve. Na sua época orientalista, representada pola sua revista neosófica La Centuria, publicada em Ourense nos anos 1917 e 1918, no número 5 da mesma fala muito bem da escola de Tagore em Santiniketon (“Morada da Paz”), onde desde 2001 eu passo longas temporadas. Também comenta como os seus poemas, ao passá-los para inglês, perdem a musicalidade presente nos originais bengalis. No mesmo número, traduzidos por Risco, publicam-se três poemas tagoreanos. Mais tarde, em A Nosa Terra e na estupenda revista Nós, publica, desta vez em galego, um texto sobre a figura de Tagore e vários poemas e contos do vate bengali. Até pouco antes de desaparecer, Risco publica em La Región, nas datas mais assinaladas, como o centenário e a morte de Tagore, artigos sobre a sua figura. Graças ao admirável Caderno de Bitácora “Madialevo” do meu filho David Paz, mestre e jornalista, pudem inteirar-me que no diário viguês Galicia, em 11 de janeiro de 1925, em norma ortográfica reintegrada como a que estou a usar neste meu depoimento, sob o título de “Cultura e Natura”, publicou Risco um interessante artigo sobre Tagore, reproduzido no blogue antes mencionado.

Em 1930, com uma bolsa da Junta de Ampliação de Estudos, Risco viaja a Alemanha. Em Berlim, na sala nobre do paço Kronprinz da Kaiser Friedrich Universität, Tagore profere uma conferência. Risco, que se encontra na cidade alemã, assiste. Enquanto, desenha uma caricatura do mestre bengali. No número 104 de 15 de Agosto de 1932 da revista Nós e no livro Mitteleuropa comenta este facto. E fala negativamente da pose do escritor indiano, demasiado hierática. Foi aí que perdeu aquela admiração que sempre sentiu por Tagore. O tema do relacionamento de Risco com Rabindranath merece, pelo seu interesse, um estudo muito mais amplo e profundo, que em breve teremos que fazer.

2. Outros Tagoreanos do Grupo Nós
Ademais de Risco, outros galegos e galegas admiraram também Tagore, e alguns mesmo receberam não poucas influências literárias das suas obras. Em primeiro lugar, temos João Vicente Biqueira (1886-1924), que fora professor no Instituto (Liceu) da Corunha, a onde ia dar aulas desde Betanços. Ainda hoje se conserva o seu paço de S. Fiz de Vijói no concelho de Bergondo, e no seu quarto o seu piano. Biqueira comparava Tagore com Castelão, sem faltar razão ao professor, membro da Instituição Livre do Ensino de Giner e Cossío. Por isso, em A Nosa Terra de 10 de abril de 1920, entre outras cousas, diz : “(…) Tagore, o poeta mais universal dos nossos dias, o admirado no mundo inteiro, o grande entre os grandes, quem é? Um bengali e que escreve em bengali, uma nobre língua da Índia que quase ninguém entende em Europa”. Mais adiante compara Tagore com o nosso Castelão. Porque antes de ser artigo este foi uma conferência pronunciada por Biqueira no ano 1920 na Corunha, com motivo da abertura duma exposição de obras do rianjeiro. Mais tarde, em 1974, ao serem-lhe dedicadas as Letras Galegas desse ano, este texto foi publicado no seu estupendo livro que é Ensaios e Poesias.

Na primeira página do diário corunhês La Voz de Galicia, o grande pensador, jornalista e escritor Antão Vilar Ponte, publica em 19 de dezembro de 1913 um muito interessante artigo sobre Tagore, com o título de“O Poeta índio”, fazendo um acertado depoimento sobre a sua figura e publicando o formoso conto-poema “A Baiadera” do escritor e educador bengali, o primeiro autor asiático a receber o Prémio Nobel de Literatura. O ano 1961, por ser o do centenário do nascimento de Tagore, é muito importante, pois são reeditadas as suas obras e são muitos os que se lembram dele e escrevem livros, artigos e depoimentos. Por isso, não podiam faltar os galegos que o admiravam. Em diversos jornais e revistas escrevem destacados galegos e galegas sobre o educador-poeta bengali. Entre eles, Francisco Fernández del Riego (com o pseudónimo de Salvador de Lorenzana), que publica no Faro de Vigo do 22 de março de 1970 um artigo com o título de “Tagore hoxe”.

3. Bibliografia

  • BIQUEIRA, João V.: Obra selecta (Poesia e Ensaio). Ponte Vedra/Braga: Cadernos do Povo-Revista Internacional da Lusofonia nº 43-46, 1998. Pp. 92-94. (Texto publicado com o título de “Divagacións engebristas” em A Nosa Terra nº 117, 10 de abril de 1920, p. 1, e em Ensaios e Poesias. Vigo: Ed. Galaxia, 1974. Pp. 112-127).
  • CASARES, Carlos: Vicente Risco. Vigo: Ed. Galaxia, 1981. Pp. 42-44.
  • LORENZANA, Salvador (pseudónimo de Fco. F. del Riego): “Tagore, hoxe”. Faro de Vigo, 22-03-1970.
  • RISCO, Vicente: “Rabindranath Tagore (Premio Nobel de Literatura)”. La Palabra nº 17-18. Ateneo de Madrid, setº 1913. Pp. 25-39. Nota: Texto da conferência pronunciada por Risco no Ateneu de Madrid em sábado dia 7 de março de 1914.
  • ID.: “Rabindranath Tagore”. Ourense: La Centuria (Revista Teosófica) nº 5, outubro de 1917. Pp. 2-3.
  • ID.: “Rabindranath Tagore”. Ourense: Nós (Boletín mensual da cultura galega) nº 104, 15-08-1932. Pp. 146-148.
  • ID.: “Rabindranath Tagore”. Corunha: A Nosa Terra nº 123 (15-07-1920) e 208 (1-01-1925).
  • ID.: “No centenario da morte de R. Tagore”. Ourense: La Región, 14-05-1961, p. 7.
  • VILAR PONTE, A.: “O poeta índio”. Corunha: La Voz de Galicia, 19-12-1913, p. 1.

Nota: Convém assinalar que, traduzidos para galego-português por Vicente Risco, ao longo de vários anos foram publicados poemas, textos e contos de Tagore na revista Nós nº 104 de 15-08-1932 e no jornal A Nosa Terra nº 54 (10-05-1918), nº 56 (30-05-1918), nº 100 (15-09-1919), nº 101 (25-09-1919), nº 142 (15-06-1921), nº 160 (1-04-1922) e nº 184 (1-05-1923).

Prof. Reformado da Universidade de Vigo, Presidente da Asociación Socio-Pedagóxica Galaico-Portuguesa (ASPGP) e Académico da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP).

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