O Jardim invadido.

Por outubro de 2022 Josep Borrell, daquela Alto Representante da União Europeia para Assuntos Exteriores, no magnifico discurso de inauguração, em Bruxas, de curso da Nova Academia Diplomática Europeia, manifestou, entre outras reflexões: “Europa é um jardim. A melhor combinação de liberdade política, prosperidade económica e coesão social que a humanidade puída construir. A maior parte do resto do mundo é uma selva e a selva poderia invadir o jardim. Os europeus tenhem que estar muito mais comprometidos com o resto do mundo. Do contrário o resto do mundo nos invadirá por diferentes médios e formas”.

Esta metáfora de jardim fronte á selva originou diversas críticas ao discurso por considerá-lo “colonialista” e desprecio ás antigas colônias latino-americanas, africanas ou asiáticas, críticas que, curiosamente, chegarem de regímenes autocráticos, teocráticos ou ditatoriais desconhecedores do direito á liberdade. Borrel defendeu-se de estas críticas negando que seu discurso fosse uma mensagem supremacista, racista ou etnocistas, era uma mensagem de solidariedade, de que não é inteligente levantar muros senão mudar a composição da jungla, de que os europeus temos que comprometermos mais para sobrevivência do nosso sistema político.

“Esta metáfora de jardim fronte á selva originou diversas críticas ao discurso por considerá-lo “colonialista” e desprecio ás antigas colônias latino-americanas, africanas ou asiáticas”

As críticas não tiverem sucesso nem na União Europeia nem no exterior. Passaram os anos e as políticas mundiais foram tomando perigosos derroteiros. Pode ser que no discurso do Sr. Borrel houvera alguma reminiscência, como selva, para aqueles países, ex-colônias ou não, antidemocráticos, mas eu penso que o temor e a referencia eram mais concretas, eram os movimentos reacionários, neoliberais e xenófobos, eram o Trump, Putin, Orban, Meloni, Millei e similares.

E asi temos hoje o jardim já assaltado sem dissimulo por Trump à frente dos USA. Trump assalta a União Europeia, tradicionalmente amiga e aliada, com os prolegômenos para violar a soberania de Dinamarca sobre parte de seu território, e decidindo o futuro de Ucrania da mão de Putin. Ou alentando os movimentos reacionários a través de seus acólitos, Orban. Meloni, Abascal.

Trump já avança na desmontagem da ordem mundial de acatamento relativo ao sistema de garantias estabelecido desde a Segunda Guerra mundial e irrompeu para um mundo sem mais regras que as do mais forte, sem atender nem ao Direito Internacional nem a Carta da ONU, com total impunidade e sem reação da timorata UE. A Selva. Não era ilusória a necessidade dos europeus de comprometer-nos mais para sobrevivência da nossa identidade e do nosso sistema político.

Advogado. Ourense - Vigo - Porto

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