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O Relacionamento cultural entre a Galiza e Portugal.

Durante décadas, sendo claramente países irmãos em língua e cultura, Galiza e Portugal estiveram de costas viradas em muitos temas. Mesmo hoje tem maior relacionamento Extremadura que Galiza com Portugal, e são muitos os centros educativos extremenhos de secundária nos que se estuda o idioma português, que tinha nascido na antiga Gallaécia, com a denominação de galaico-português. É muito significativo aquele formoso desenho de Castelão do seu Album Nós, no que um velho tem no seu colo um menino, sentado na ribeira do Minho (pode ser em Tui, Arbo ou Salvaterra). Ao outro lado está Portugal e o rapaz pergunta: «E os da beira de alá são mais estrangeiros que os de Madrid? O pé do desenho continua com a frase: «Não se souve o que lhe respondeu o velho». Embora, intue-se, pois ao sul da Nossa Terra está Portugal e não Andalucia. Sobre o relacionamento entre ambos países irmãos tem-se feito muito pouco, ao menos ao nível de instituições guvernamentais durante infinidade de anos. Existem ainda lamentávelmente múltiplos preconceitos por ambas as partes. Os sucessivos governos galegos não chegaram mais alá de tímidos contactos e de frases rimbombantes, vacias de conteúdo. Existe o Eixo Atlántico, embora com muita pouca actividade e intercâmbios, e uma Comunidade de Trabalho Galiza-Norte de Portugal, mais no papel que em factos concretos e reais. A Lei Paz Andrade, aprovada por unanimidade no Parlamento Galego, caminha a passo de tartaruga, pois no governo galego não existe o entusiasmo necessário para faze-la efeitiva. É um verdadeiro contra senso, que Galiza e o Norte de Portugal, especialmente, não tenham um relacionamento institucional, periódico e continuado. Para favorecer os intercámbios comerciais, culturais, industriais, educativos e turísticos. E mesmo para receber ajudas da União Europeia. Mesmo o relacionamento entre universidades quase que não existe. Um facto realmente inexplicável.

É possível que a razão de que durante o franquismo e os anos que levamos de democracia, fora mínima a relação galaico-portuguesa de carácter oficial, seja o facto de que existisse mêdo por parte dos governantes galegos e os da corte madrilenha, a que galegos e galegas pudessem refletir de que Portugal é uma grande Galiza, com cultura e idioma similares. E, por isto, continuamos sem poder olhar a televisão portuguesa, sem escuitar as suas rádios, sem poder comprar livros, diários e revistas lusos de forma normal nos quiosques, e outros recursos culturais aquí na Nossa Terra. É uma espécie de mêdo irracional à liberdade. Por isto, o pouco relacionamento cultural e educativo que houve e há entre ambos povos, a um lado e outro da raia seca e da raia húmida, foi quase que sempre levado a cabo por intelectuais particulares com sensibilidade e de forma individual, e também por entidades culturais e pedagógicas de carácter privativo. Por elo é muito de agradecer, e nos enche de orgulho e alegria, que desde há pouco tempo tenhamos uma publicação periódica galaico-portuguesa com o nome de Novas do Eixo Atlántico (Xornal Galego-Português da Gallaecia), que dirige o nosso amigo Guillermo Rodríguez, que antes tinha dirigido A Peneira. Venho colaborando com grande ilusão nesta publicação, que desejo de todo coração tenha uma larga vida.

DEFENSORES DA IRMANDADE GALAICO-PORTUGUESA

Castelão no seu formoso livro Sempre en Galiza, considerado por muitos como a «Bíblia dos Galegos», dedica vários capítulos a Portugal, e sinala que quando viajava a este país ao voltar sentia-se mais «galego». É célebre a sua frase: «A nossa língua floresce em Portugal», que tem um senso profundo e acertado. Pela sua parte, Antom Vilar Ponte, chegou a dizer que «O galego que não ama Portugal, não pode amar a Galiza». O nosso Otero Pedrayo escreveu aquilo de que «Galiza é uma prolongação de Portugal, ou Portugal uma prolongação da Galiza. O mesmo dá». O hino galego escrito por Pondal é um verdadeiro canto à amizade da Galiza com Portugal. Cuevilhas manteve um relacionamento prolongado com intelectuais portugueses, e ademais ainda hoje as suas investigações sobre a pré-história e a idade do ferro da antiga Gallaécia estão sem superar. Foram muitos os galegos que de forma periódica viajaram a Portugal, encontrándo-se como na sua própria casa, para participar em palestras, seminários, congressos e exposições. Entre os já desaparecidos temos a Risco, Bouza-Brei, Carvalho Calero, Guerra da Cal, Taboada Chivite, Pepe Posada, Fernández del Riego, Vicente Biqueira, Manuel Maria, os irmãos Carré, Celso Emílio, Álvarez Blázquez, Filgueira, Rafael Dieste, Blanco Torres, Rei Alar, Juan Naia, Díaz Jácome, Antom Tovar, Pura Vázquez, González Garcés, Isaac D. Pardo, Manuela Ribeira, Anjo Martínez e muitos outros. De entre os vivos, aínda entre nós, Isaac Estraviz, J. L. Fontenla, Gil Hernández, Rudesindo Soutelo, Ângelo Cristovão, Ângelo Brea, Rguez. Colmenero, Felipe Senén, Adela Figueroa, Alexandre Banhos, Carlos Durão, Martínez Coello, J. M. Barbosa, Rodríguez Cruz, Torres Regueiro, Martinho Montero, Mª do Carmo Henriques e também eu mesmo, entre outros.

Por parte portuguesa, temos que destacar em primeiro lugar ao poeta de Amarante Teixeira de Pascoães, que abre com um poema dedicado aos poetas galegos o primeiro número da revista Nós, pois era amigo de Risco. E muito especialmente a Manuel Rodrigues Lapa, de Anadia-Porto, grande amante da Nossa Terra e experto em lírica galaico-portuguesa. Também o grande experto em jogos populares António Cabral, de Vila Real, que participou em numerosos encontros galaico-portugueses, a um lado e outro da raia, e nas «Jornadas do Ensino da Galiza e Portugal». Merecem capítulo aparte o pioneiro Manuel de Oliveira Guerra, criador da revista galaico-portuguesa Céltica, com sede no Porto, na que colaboravam galegos e portugueses. E Joaquím Rodrigues dos Santos Júnior, que viajava periódicamente à Galiza, e a Ourense em particular, pois era muito amigo de Cuevilhas. Em Torre de Moncorvo consérva-se a sua excelente biblioteca, na que destaca muito especialmente o apartado de publicações da Galiza, com muitas primeiras edições de livros de galegos, assinados por seus autores. Oliveira, Santos Júnior e Rodrigues Lapa, merecem um artigo aparte cada um deles. É necessário mencionar também a António Lamela, que tanto ajudou nos anos oitenta e noventa a colocar placas sobre a amizade galego-portuguesa, em Ponte de Lima, Guimarães, Arcos de Val-de-Vez, Viana do Castelo e Ponte da Barca. De uma ampla listagem de amantes da Galiza, há que mencionar em especial a Hernani Cidade, Hugo Rocha, António Leite, Rebelo Bonito e António Norton. Entre os vivos merece uma especial menção o Padre Lourenço Fontes de Vilar de Perdizes, Chrys Chrystelo das Ilhas Açores, António Pires Cabral de Vila Real, Hélder Pacheco de Porto, José Luis Pires Laranjeira de Coimbra, Salvato Trigo de Porto e António Sousa Fernandes, João Formosinho e Rui Vieira de Castro da Universidade do «Minho» em Braga. Ademais do actual presidente da Câmara Municipal de Montalegre, Orlando Alves.

Num próximo artigo falaremos das entidades culturais e educativas que mais se têm volcado na organização de actividades em comum entre galegos e portugueses. Entre elas podemos citar a AGAL, a ASPGP, a AGLP, as Irmandades da Fala de Galiza e Portugal e a Associação de Amizade Galiza-Portugal. Com as suas «Jornadas do Ensino», Mostras do livro português, Encontros de Jogos Tradicionais, Congressos internacionais da Língua Galego-Portuguesa e Colóquios da Lusofonia.

Não seria justo deixar de mencionar que as Câmaras municipais, com as suas cidades, de Ourense e Vila Real, estão gemeadas, embora nos gostasse que realizaram mais actividades conjuntas. Menos mal que se mantêm o Prémio de Poesia Cidade de Ourense, com participação de poetas galegos e portugueses, o único no que se podem premiar textos escritos na norma portuguesa. Os nossos parabéns vão para os concelhos de Verim e Salvaterra do Minho, que mantêm programas comuns e intercámbios com os de Chaves e Monção respeitivamente. Animamos a que façam o mesmo os de Tui-Valença do Minho, Arbo-Melgaço, Vilardevós-Vinhais e Ginzo-Montalegre.


Prof. Reformado da Universidade de Vigo, Presidente da Asociación Socio-Pedagóxica Galaico-Portuguesa (ASPGP) e Académico da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP).
Publicado o 23 Xan 2018 en José Paz Rodrigues.
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