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Galiza, Pátria espiritual de José Afonso.

No mês de abril lémbro-me sempre de esse grande cantautor que foi José Afonso. O Zeca Afonso, tal como é conhecido em Portugal. Ao que muito admiramos os galegos bons e generosos e de cujos cantares gostamos imesamente. Nas minhas extraordinárias bibliotecas e compactotecas privadas disponho de quase todos os discos que chegou a editar, 28 em total. Tanto em formato antigo de vinilo como em CD. Conservo-os como ouro em pano, e aínda mais aquele, o “Cantigas do maio”, que tenho autografado do seu punho e letra, quando a meados dos anos setenta veu atuar por primeira vez a Ourense e, em concreto, ao Liceu Recreio Ourensano. Eu teve a grande sorte de estar ao lado do Zeca esse dia, escutando as suas canções, num ato quase que clandestino, pois ainda vivia o ditador Franco, e na Espanha não existiam as liberdades. Logo mais tarde o Zeca Afonso viria também à Casa da Juventude ourensana. Viera acompanhado do cantor galego Benedito Garcia. Tenho também vários livros com as suas cantigas e uma fotobiografia, ademais de um vídeo com imagens das suas atuações. Somos bastantes os galegos que amamos Portugal, igual que o cantor de Aveiro amava a Galiza, da que sempre dizia que era a sua pátria espiritual. Na Nossa Terra este cantautor é admirado por muitos galegas e galegos, como se fosse um dos nossos melhores cantores. Como realmente o é. Ademais de um excelente poeta, pois a maioria das suas canções foram escritas por ele. E cantou também poemas de Camões e cantigas populares. Não sem surpreesa, no país irmão conhecem esta admiração galaica pelo cantor.

José Afonso tinha nascido a 2 de agosto de 1929. O dia 23 de fevereiro de 1987, com 57 anos, faleceu tristemente em Setúbal. Depois de uma terrível enfermidade, lenta e prolongada, do seu sistema nervoso, denominada esclerose lateral amiotrófica. Era uma pessoa enormemente digna, que sempre apoiou ao povo trabalhador e aos marginados, e estivo em contra de fascismos e ditaduras. Cúmprem-se agora os trinta e um anos da sua desaparição física, mas a sua figura, a sua lembrança, a sua voz, a sua música, a sua poesia, estão permanentemente entre nós. Como uma lenda viva. Quando chega o mês de abril muitos lembramos a famosa revolução dos cravos, acaecida no ano 1974 em Portugal, que vivimos muito em direto. Foi esta a mais lírica, pacífica e modélica revolução de qualquer país acontecida no mundo. Na que não houve derramamento de sangue e o povo chegou a pôr flores vermelhas nas bocas das espingardas dos soldados. Precisamente este movimento iniciou-se com o lançamento pelas ondas radiofónicas de essa maravilhosa cantiga do Zeca Afonso, “Grândola, vila morena”.

ZECA NAS SUAS PALAVRAS :

Nas suas atuações na Nossa Terra, e em algumas entrevistas, o Zeca tinha dito de forma muito clara:

“Galiza é para mim também uma espécie de pátria espiritual…” e “aproveito esta oportunidade para uma vez mais afirmar a minha grande amizade pela terra e o povo galegos, com os que ao largo dos anos mantive as melhores relações, e para manifestar também a minha inteira solidariedade com a luita pelo reconhecimento efeitivo da língua e cultura galegas como uma das mais ricas da península”. São estes dois treitos das palavras pronunciadas pelo Zeca Afonso que Benedito García, do grupo da nova canção galega Voces Ceibes, recolheu num artigo que se pode ler na página web da Associação José Afonso –http://www.aja.pt/-.

Zeca Afonso manteve um intenso relacionamento com a Galiza. O 10 de maio de 1972, cantou por primeira vez em público, perante mais de 3.000 pessoas, Grândola, Vila Morena, a canção que depois chegaria a ser como já comentamos símbolo da Revolução dos Cravos. E o cenário de aquela atuação foi Compostela: o Burgo das Nações, onde hoje se encontra o Auditório da Galiza, perto do lugar no que no mês de maio de 2009 foi baptizado como «Parque José Afonso».

Benedito, Xico de Carinho, João Guitiám, Artur Reguera e Antão Labranha foram algúns dos amigos galegos do Zeca, que o acompanharam nos seus concertos pela Galiza: Ourense, Lugo, Compostela… Anos depois, algumas associações culturais galegas, e entre elas a «Gentalha do Pichel», em novembro de 2009, reuniram aos amigos do cantautor português para organizar uma homenagem de lembrança ao Zeca. No ato, sob o título de «Festejar a vida e a obra do Zeca», com a colaboração também da Associação José Afonso, atuaram com as suas canções João López, Ugia Senlhe, Luís Almeida e o grupo «Na Virada», estando presentes os membros galegos da associação citada, que foi a impulsora da iniciativa conhecida como «80 anos do Zeca» -http://80anosdezeca.blogspot.com/-, na que se envolveram perto dum cento de associações portuguesas e galegas, para lembrar ao músico com diversas atividades, como esta da Galiza.

Por sorte, temos em Ourense um grupo musical denominado «Terra Morena», coordenado por Xico Paradelo, que mantêm viva a música e as cantigas do Zeca, recuperando o seu repertório de forma íntegra.

Eduardo Maragoto, presidente da associação da Gentalha, tinha dito acertadamente que José Afonso deu recitais na Galiza a partires do ano 1972 – um deles em vísperas do 25 de abril-, até o ano 1979, onde ofereceu o seu último concerto na Galiza, no Parque de Castrelos de Vigo. Em 1985 recebeu uma homenagem neste mesmo cenário, e entre o 25 de abril e o 23 de maio do 1987 celebráram-se diversos atos para homenagea-lo. Em 1994 o Colégio de Fonseca acolheu uma amostra sobre ele, e em 1997 fez-se a descoberta de uma placa comemorativa dos 25 anos do Grândola no Auditório da Galiza. Do 19 ao 21 de maio de 2017 teve lugar na localidade de Cedeira o «Iº Festival de Música Galego-Portuguesa», e dentro do programa organizou-se uma nova homenagem de lembrança ao Zeca, a última realizada na Galiza. “Estou farto de explicar por todo o lado que a Galiza não é Espanha”, dizia o Zeca. “O triângulo mágico do Zeca está entre África, Moçambique e Portugal”, onde luitou contra a ditadura salazarista e o colonialismo, e “Galiza”, lembrou o atual presidente do conselho da Associação Galega da Língua (AGAL), Eduardo Maragoto.

OS SEUS DISCOS E CDs:

De entre os seus CDs gostamos de maneira especial do antes citado “Cantigas do maio” do ano 1971. Mas também muito dos titulados “Cantares do andarilho” (1968), “Contos velhos, rumos novos” (1969), “Traz outro amigo também” (1970), “Eu vou ser como a toupeira” (1972), “Venham mais cinco” (1973), “Coro dos tribunais” (1974) e “Enquanto há força” (1978). Ademais da canção sinalada “Grândola…”, são formosas também “Milho verde”, “Canto moço”, “Por trás daquela janela”, “O que faz falta”, “Viva o poder popular” e, muito especialmente, o poema de Camões “Verdes são os campos da côr de limão”. Cantado de forma admirável por este cantautor. Que muito nos gostaria fosse recuperado de novo e que os jovens de hoje , na Galiza, pudessem disfrutar do engado e conteúdo das suas canções.

“Grândola vila morena / Terra da fraternidade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti ó cidade / Em cada esquina um amigo / Em cada rosto igualdade”, tinha cantado o nosso músico-poeta.

De Santiniketon (Bengala-Índia), para Galiza e Portugal, a 21 de fevereiro de 2018.
(Dia Internacional da Língua Materna)


Prof. Reformado da Universidade de Vigo, Presidente da Asociación Socio-Pedagóxica Galaico-Portuguesa (ASPGP) e Académico da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP).
Publicado o 21 Feb 2018 en José Paz Rodrigues.
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