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Economía criativa

Ria Lemaire | Veio de longe; foram muitos os dias da viagem, da fome e da sede. Trabalhador ferreiro desempregado, ele trazia a família toda: a mulher que levava na cabeça a trouxa com os poucos pertences da família e os filhos. Emigrantes da seca, – retirantes -, chegaram em Juazeiro do Norte, um povoado de casas de taipa em plena expansão econômica e demográfica graças a um milagre, ocorrido repetidas vezes desde o ano de 1889. Foi uma hóstia que um padre do Crato, o Padre Cícero, ministrava a uma beata, a Maria de Araújo, e que se transformava em sangue na boca da beata.

 

Já em 1911, o padre conseguiu elevar o povoado a cidade, tornando-se o seu primeiro prefeito. Daí em diante, a expansão econômica da cidade e a reputação do padre milagreiro, homem político e grande educador do povo, iam, de mãos dadas, mudar a vida do povo e a cara do Nordeste todo. Nasceram no seu solo as rotas por onde chegavam, no Horto e na Matriz , os sonhos e a fé profunda e inabalável de milhões e milhões de romeiros e retirantes, todos em busca de uma vida melhor, sem fome nem sofrimento, com justiça e paz.

Foi uma dessas rotas que, um dia, trouxe a Juazeiro do Norte o ferreiro e a sua família. Não encontrou trabalho logo; os filhos eram muitos, a miséria era grande. O homem decidiu pedir a ajuda do Padre que lhe propôs uma atividade , precursora longínqua daquelas que hoje em dia os pensadores futurólogos chamam de economia criativa. Adaptando-se ao novo ambiente de cidade-de-romeiros, a família toda ia produzir candeeiros para as festas religiosas e as suas procissões. Bem animados, pais e filhos começaram a produzir candeeiros bonitinhos; em pouco tempo um primeiro quarto da casa já se encheu só de candeeiro. O pai foi anunciar ao padre que o trabalho estava se acumulando demais, mas o Padre insistiu para eles continuarem a produzir. Então, produziram mais, até encher o segundo quarto de dormir dos filhos, o Padre pedindo para produzir mais ainda.

Aí chegou o dia 2 de fevereiro, dia daquela festa antiquíssima que os povos celtas chamavam de imbolc, Festa da Luz, que era, em terras celtas, a festa da fertilidade no momento do renascer da natureza. Na impossibilidade de extirpar essa festa do coração dos povos, a Igreja católica apropriou-se dela, cristianizando-a com nomes tais como Lichtmis em holandês, ¨missa da Luz¨ com procissão de velas, ou Chandeleur em francês, ou ainda Candeloria / Candelária em galego-português, já para o povo se esquecer que era festa da Luz, até o dia em que um Papa, obcecado pelo sexo e chamado Gelasio, a transformou, – parece que foi no ano de 492 -, em Festa da Purificação da Virgem! Difícil imaginar aberrância maior: de que purificar a Virgem que concebeu, segundo a doutrina oficial propagada pelo mesmo papa, sem sexo? Aberrância que foi o começo de séculos de humilhação e depreciação cruéis para as mulheres que, até bem adiante no século XX, eram obrigadas pela Igreja a se apresentarem 40 dias depois do parto, para um ritual de ¨purificação¨.

 

O Padre Cícero tinha tudo preparado para a Festa que naquela época ainda se chamava a Festa da Nossa Senhora da Luz. Ao proferir o sermão de abertura, ele fez um chamado que o povo logo integrou: “Meus irmãos…este ano vamos acompanhar a procissão de Nossa Senhora das Luzes com velas, vamos levando candeeiros, que os irmãos irão comprar no seguinte endereço…” Assim é que se re-inventou a última festa do ciclo anual das grandes festas religiosas de Juazeiro do Norte, a Festa de Nossa Senhora das Candeias. Assim é que se conta a história da festa, até hoje em dia, em versos e em prosa, nas ruas e casas da cidade.

Esta história que uma romeira me contou, ontem à noite, quando fui assistir, juntamente com 400.000 mil outros romeiros, à procissão de Nossa Senhora dos Candeias, seria uma lenda? Uma daquelas inúmeras lendas que povoam o imaginário dos romeiros? Ou será que ela conta uma verdade histórica? Ou uma mistura das duas? Indagação que nossa educação europeia nunca deixará de nos impor. Mas, no fundo, que importa?

 

O que importa é que ela traz um lindo exemplo, precursor dessa economia criativa que os pensadores-futurólogos e dinamizadores culturais estão anunciando hoje em dia, confrontados à crescente desumanização do nosso mundo, à destruição da sua natureza e à poluição do nosso meio ambiente, causadas pelo sistema econômico vigente. Seria uma economia que não seria de dinheiros só, mas baseada em quatro patamares ¨econômicos¨ básicos e interconectados: o financeiro, o ambiental, o social e o cultural que se interconvertem. .

Ao inventar, ou melhor: reinventar, um novo produto de produção local, o ferreiro e o padre, introduziram no e para o mercado local um produto durável e barato, que ia gerar lucros consideráveis e dar trabalho a muitas pessoas. Esse produto ia constituir um fator importante de coesão social e ambiental, ao permitir aos romeiros- compradores e utilizadores do produto -, que criassem juntos as procissões de luzes, formas de beleza e experiências estéticas e emocionais inesquecíveis, motivos para voltar outras vezes para a romaria, para se sentir mais felizes e ¨iluminados¨ para a sua vida cotidiana.

 

Em última instância, os candeeiros do Padre e do ferreiro abrirão, se houver no futuro novas formas de ensino menos limitadas e alienantes, menos obcecadas por boas notas, provas, exames e concursos, mais humanas e incentivadores da criatividade dos jovens, um espaço onde eles vão poder pensar o futuro, levando em conta e reinventando os saberes, a sabedoria e as tradições dos seus antepassados, pensar as raízes da sua identidade desde a cultura celta do mundo galego-português até à romaria local.

Publicado o 17 Feb 2017 en Cultura, Portada.
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