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A missão pedagógica por Galiza do ano 1933


No dia 13 de Agosto de 1933 iniciou-se na Mesquita e Ginzo de Límia um dos mais formosos projetos educativo-culturais da Segunda República para a nossa terra galega. Sob o experimentado timão do galego Rafael Dieste, vários educadores, com o nome de missionários pedagógicos, realizaram um roteiro cultural pela Galiza, levando a arte, a música, o cinema, o teatro, os fantoches, os conta-contos, as cantigas populares, as exposições artísticas, as conferências, os livros, as leituras públicas, os jogos tradicionais, a cultura popular e outras manifestações culturais, aos lugares mais esquecidos, recônditos e abandonados.

Em todos os lugares foram recebidos com os braços abertos e com algumas reticências e receios em alguma que outra localidade. Crianças, jovens, adultos e pessoas da terceira idade, desfrutaram com as atividades que para eles se organizavam. Aproveitando que este ano se celebra o 85 aniversário da Missão Pedagógica realizada na Galiza em 1933, dirigida por Dieste, de forma sintética explicamos este formoso projeto pedagógico-cultural que percorreu as quatro províncias galegas.

Muito pouco depois da proclamação da República, em 14 de Abril de 1931, cria-se por Decreto de 29 de Maio e Ordem de 6 de Agosto o “Padroado de Missões Pedagógicas”. Como tinha que ser, dá-se-lhe a presidência ao grande pedagogo Manuel Bartolomé Cossío, “alma mater” deste projeto, que já o tinha concebido em 1881 e começou a madurar a princípios do século XX, levando a cabo em 1912 alguma missão nas províncias de Málaga e Tarragona. E o tema é tomado em consideração pelo governo em 1922.

Porém, foi a 2ª República a que lhe deu o empurrão definitivo e começaram a andar missões pedagógicas em numerosos lugares das diferentes comunidades espanholas. Curiosamente com menor incidência em Catalunha, agás a província de Lleida. Para dirigir a Missão Pedagógica pela Galiza, Cossío escolhe o rianjeiro Dieste, ao considerá-lo pessoa com valores humanos e intelectuais. Também porque assim eliminaria possíveis reticências dos galeguistas, dado que o projeto era do governo de Madrid. De onde saem os missionários a 11 de Agosto de 1933, com as suas camionetas carregadas de livros, gramofones e discos, reproduções de quadros famosos do Prado, projetores de cinema e de vistas fixas, documentários e filmes mudos cómicos de Charlie Chaplin.

Na Memória das Missões do período que vai de Setembro de 1931 a Dezembro de 1933, de que temos na nossa biblioteca a edição original de 1934 e a fac-similar de 1992, estám recolhidas de forma detalhada as missões realizadas por todo o território espanhol e, em concreto, a realizada do 13 de Agosto ao 17 de Dezembro de 1933 na Galiza, começando na Mesquita e Ginzo e terminando no Barco de Val d’Eorras, depois de percorrer lugares das quatro províncias galegas.

Acompanhado pelo pintor Ramón Gaya, encarregado de comentar os quadros expostos e inclusive os seus próprios desenhos realizados em cada lugar, o mestre galego da escola plurilingüe José Otero Espasandím, o estudante Arturo Serrano Plaja, o auxiliar de missões António Sánchez Barbudo, o escritor ourensano António Ramos Varela e o artista, também ourensano, incorporado um pouco mais tarde ao grupo, Cándido Fernández Mazas, a escola itinerante realiza o seu périplo galego. No mês de Agosto pelas localidades da Mesquita, Ginzo de Límia, Alhariz, Maside e Carvalhinho. Em Setembro têm o seu turno as localidades pontevedresas de Lalim, Silheda e a Estrada e as corunhesas de Boiro e Rianjo. Durante o mês de Outubro a caravana cultural visita na província corunhesa as vilas de Noia, Serra de Outes, Muros, Serres, o Pindo, Cee, Corcubiom e Fisterra.

Em Novembro desfrutam das missões Carvalho, Malpica (onde se inaugura o teatro de títeres ou fantoches, com a farsa de Dieste “O estrangeiro”), Betanços, Vilalva e Riba d’Eu, com uma pequena prolongação às localidades administrativamente asturianas de Castro Pol e a Veiga de Riba d’Eu. Finalmente no mês de Dezembro os missionários vam à Fonsagrada, Baralha, Bezerreá, Quiroga e finalizam o seu roteiro galego no Barco de Val d’Eorras. Os missionários continuam mais tarde pela comarca do Berzo.

Para fazer esta síntese documentámo-nos tomando como base as memórias antes citadas e as investigações dos dous professores galegos Porto Ucha e Oterio Urtaza. Sem dúvida, este último foi o que mais investigou sobre este tema, dado que a sua tese de doutoramento estivo dedicada a Cossío. O primeiro pesquisou mais sobre a ILE (Instituição Livre do Ensino), que é sem dúvida a base de todo o realizado em educação no período republicano, e Cossío foi o mais importante discípulo de Giner de los Ríos, criador principal deste importante movimento pedagógico. Naturalmente, também temos em conta o manifestado por Dieste e os missionários nas correspondentes memórias já citadas e as lembranças da há poucos anos falecida, Natalia Jiménez Cossío, neta do grande educador e institucionista, que também foi diretor do Museu Pedagógico.

PALAVRAS VIVAS DOS MISSIONÁRIOS :

Preferimos que falem os protagonistas. Por isso queremos trazer aqui as suas palavras, que são a melhor testemunha do que supôs este formoso projeto :

“A primeira visão que das Missões Pedagógicas tinha o povo ao que acabávamos de chegar”, diz um missionário na memória (provavelmente Dieste), “e no que íamos a permanecer a vezes seis ou sete dias, era a dum camião carregado com enormes caixas, por cimo das que ia empoleirado um grupo alegre de rapazes que respondia ás exclamações com que, pelo geral, eram recebidos (…). O público que especialmente procuravamos era este, o labrego e de artesãos quando existiam nas vilas. Embora, acudia gente de todas as classes sociais, especialmente jovens, aos que atendiamos sempre da melhor maneira (…). A nossa estância significava pelo geral nas vilas, uma satisfação e um como imponderável apoio moral para os mais humildes. O mito da cultura era sentido nestes dias de convivência e acercamento mútuo como em nenhum outro momento”. Ao referir-se à sua experiência com os povos do mar, o missionário diz: “O marinheiro destas costas bravas da Corunha é gente muito singela, de viva imaginação e de espírito ingénuo cultivado em tradições de cultura popular; são gente de grande curiosidade e excelente público para as Missões”. Pela sua parte são muito interessantes as lembranças de Dieste contadas ao professor Otero. Resultam muito significativas as seguintes: “algúns dos muitos filmes encantadores do primeiro Charlot acompanhávam-se com a audição do Septimínio de Beethoven, que lhes ficava maravilhosamente”. É esta uma lembrança da esposa de Dieste, também missionária, Carmen Munhoz. À pregunta de se alguma vez houve problema com o idioma, Dieste responde: “Não. Eu falei frecuentemente em galego; mas a maior parte dos que me acompanhavam, por razões de hábito ou origem, falavam castelhano com perfeita naturalidade, encontrando sempre a mais cordial acolhida. Quando eu falava em galego, a mesma espontaneidade contribuia a que a gente não fizese diferência”. Resulta também curiosa a anedota que comenta Dieste, ao estar representando a sua farsa de títeres em Malpica: “Encomendamos o papel de “Vento” a Cándido Fernández Mazas. Era de noite, no equívoco do malentendido, e o vento assobiava segundo ia sucedendo a cena. Foi logo quando apareceu detrás do Guinhol um amigo de Mazas e, supreendido, díz-lhe: “Hola Candidito! Qué fazes por aquí?” e continuou assobiando”. Ao falar dos missionários Dieste sinala que “o mais necessário era uma especial disposição, sinceramente fraternal, para comunicar-se com o povo, pelas nossas artes e recursos transformado em público (…). Nós nunca lhe comentamos ao povo, nen lhe sugerimos de maneira alguma, que estava num baixo nível de cultura e que tinha que elevar-se. Sempre lhe dissemos que a sua cultura tinha um valor, e que dessas formas singelas que eles conheciam tinham florescido grandes manifestações da música e da poesia popular e culta (…). Usavamos, até onde nos era possível, os recursos dos joglares, mas não como simples joglaria. Em primeiro lugar procuravamos devolver a consciência dos seus próprios valores ao povo (…). O que não faziamos, nem nos correspondia, era propaganda política, a pesares de que algúns seitores caciquís ou de extremado e ráncio conservadurismo, não só nos olhavam com receio, senão que procuravam levar este á consciência popular e inclusivê infantil”. Rafael Dieste termina estas belas lembranças dizendo: “Depois de ter sido missionário, dificilmente se podia ser marrulheiro em política, fitício ou pedante em arte ou descuidado em asuntos de ética profissional”.

Para entender o que eram as Missoes é muito significativo reproduzir aquí o pequeno discurso inicial da autoria de Cossío, que abria em cada povo os diferentes actos : “É natural que queirades saber, antes de começar, quêm somos e a que vimos. Não tenhades medo. Não vimos a pedir-vos nada. Ao contrário ; vimos a dar-vos de balde algumas cousas. Somos uma escola ambulante que quere ir de povo em povo. Mas, uma escola onde não há livros de matrícula, onde não há que aprender com lágrimas, onde não se há pôr a ninguêm de joenlhos, onde não se necessita fazer novelos. Porque o Governo da República que nos envia, disse-nos que venhamos antes de nada às aldeias, às mais pobres, às mais escondidas, às mais abandonadas, e que venhamos a ensinar-vos algo, algo do que não sabedes por estar sempre tão sós e tão longe de onde outros o aprendem, e porque ninguém, até agora, veu ensinár-vo-lo; mas que venhamos também, e o primeiro, a divertir-vos. E nós quigeramos alegrar-vos, entretervos.


Prof. Reformado da Universidade de Vigo, Presidente da Asociación Socio-Pedagóxica Galaico-Portuguesa (ASPGP) e Académico da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP).
Publicado o 19 Xul 2018 en José Paz Rodrigues, Universidade.
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